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domingo, setembro 20, 2009

Dûrsi Monoe Nûr



O cheiro quente e adocicado das noites de verão percorria as ruas suspensas pela hora avançada.

Era Lua Nova.
Uma irmã levantou-se de mansinho da cama. Silenciosa. Seguiu até a varanda atraída pela brisa que lhe trazia o cheiro a alfazema vinda dos campos da mãe. Tinha um canteiro de alecrim perto da janela do quarto. Sim...também sentia o alecrim.
Desceu as escadas de madeira com cuidado. A madeira do bosque do pai. O cheiro do cedro. A aspereza das mãos que a embalam e a protegem misturada com o cheiro de tomilho fresco e oregãos colhidos no final do dia para levar para casa. Deslizou pelo corredor saboreando a pedra do chão que contrastava com o ambiente mais quente e lhe fazia o sangue aquecer correndo mais depressa. Sim, o nervoso do passeio clandestino também ajudava.
Abrindo a porta devagar para não acordar o trinco velho e ruidoso, saiu de casa. Palpou satisfeita com os dedos do pés a terra arrefecida levemente pela noite. Sorriu para o céu escuro e seguiu em frente. Caminhou até à árvore velha dos ramos torcidos e pacíficos. “E agora?”.... “Que querem que eu faça?” Os sons da noite pausaram serenamente e ela viu-se envolvida na harmonia que vinha da velha guardiã à sua frente. “Vem filha... Conhece-me como eu te conheço... Escuta-A...”. A criança aproximou-se mais da antiga vibração que se ressoava com a sua voz na mente. “Quem és tu? Escuto quem? Quem é Ela?...”. “Não estarás só... oiçam o céu... a chuva e as nuvens vão mostrar-vos o que serão.”, a voz transformou-se no resfolgar das folhas na copa do velho carvalho. “O céu?...”. Um som de passos leves fê-la parar de pensar. Virou-se com calma e tentando parecer descontraída.
“Mana? Estás aqui a fazer o quê?”
“Isso pergunto eu! Levantaste-te da cama para sair de casa porquê?” 
A pequena figura fitava-a com curiosidade através de um cabelo dourado revoltoso de quem saiu dos lençóis de repente.
Não valia a pena inventar. Ela saberia. Apesar de ser mais nova, ela saberia se não lhe dissesse a verdade. Ainda lhe ocorreu que a pudesse ajudar no enigma das respostas no céu.
“Chamaram-me.”
“Quem?”
“Sinceramente, não sei... A voz veio no cheiro das alfazemas...”
“E o que te disse?”
“Primeiro o meu nome... eu segui a voz até chegar aqui, à frente do carvalho.”
“E depois?”
“Depois disse-me: “Conhece-te. Ouve-A.””
“Ouvir quem?”
“Eu também não sabia, até que me disse: “Oiçam os céus, nas nuvens e na chuva.””
“Mas...não vai chover agora... Não cheiro a humidade...”
Maninha pequenina. A mana do seu coração. Tão nova e tão velha. Com ela podia ser quem era verdadeiramente, sem medo de se mostrar, sem medo de ser julgada.
“Talvez não seja para agora que tenha que descobrir...”
“Mana... A voz disse oiçam... quem vai estar contigo?”
Até ouvir a pergunta que já tinha feito a si própria em voz alta não tinha desconfiado da resposta. Mas ao vê-la à sua frente, com a camisa comprida lilás e o olhar vivo e atento, a verdade da sua suspeita imediata ganhou sentido.
“Tu Aysu.”
“Eu?”
Sorriu ao ver a surpresa e o entusiasmo do que sabia ser uma confirmação da resposta.
“Quem mais? Aqui no nosso covil, tão perto da nossa natureza humana, tão perto da nossa natureza elemental e primal, cuidadas pela Mãe e guardadas pelo Pai... Quem mais é parte de mim?”
Um sorriso tímido mas orgulhoso.
“Alva, um tigre e um lobo podem viver juntos, sempre?”
“Se o tigre e o lobo definirem bem as responsabilidades na vida um do outro desde o início, e se a busca da luz e do equilíbrio for um Caminho partilhado, não vejo razão para deixarem de ser um só. Mesmo que tiverem de trilhar por estradas afastadas, a Lua há-de ser sempre a mesma a brilhar-lhes e a lembrar-lhes de quem são, de onde vêm e para onde vão. O Sol será o mesmo a acompanhá-los ao longo das vitórias e obstáculos que se lhes depararem. O amor vais ser um laço que nunca os vais deixar de fazer sentir parte de uma unidade maior.”
“Mas...e quando não houver Lua? E quando for Lua Nova? Eles não vão ver  a Lua, e vão-se sentir mais sozinhos...”
“Quando chegar a noite de Lua Nova, o tigre e o lobo vão saber que aquela noite é só sua. Porque a Luz da Lua e do Sol vai correr-lhes nas veias e no coração. E saberão que é em noites sem Lua que nos lembramos de quem somos e o que viemos fazer. Nascemos dentro de nós próprios em Lua Nova.”
“Então a Lua Nova é a nossa guia. A anciã que nos concede o conhecimento da nossa personalidade e poder. Devíamos celebrar isto.”
Ver a sabedoria nos ombros e o amor no olhar. Fitam-se e sentem fluir aquele energia de cada uma mas que já não é só das duas.
Sorriem e voltam-se para a entrada da casa.
“Vamos dormir mana. A coruja já nos está a lembrar das horas.”
“Vamos. Antes que chegue a tua estrela da manhã...”
“Gracinha a tua...”
Felizes percorrem o caminho de volta para as camas. Em minutos estariam a dormir soltamente.

Algures na penumbra dos sonhos, encontram-se duas irmãs. Está um tempo estranho. Chove aos soluços e o sol bate-se para ir brilhando nos intervalos. As duas olham-se e procuram à volta mais sinais da natureza que lhes fala. Ao enquadrarem o céu acima das suas cabeças vêem um estranho Arco-Íris deitado sobre elas. Uma gargalhada a duas vozes ecoa pelo sonho e um nome gritado em tom de descoberta e destino: Irmandade do Arco-Íris!

 Alva Möre

Para a minha Lua de Água

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